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ESTRESSE COMO FATOR DE RISCO, PROBLEMA PARA AS PSICÓLOGAS
O suicídio da filha que se enforcou e gerou estresse insuportável num
cardiopata, a burocracia que atrasa a autorização para uma cirurgia
cardíaca e até o desespero da família que, em decorrência de um infarto,
fantasiava a miséria, sem os recursos do trabalho do provedor, são
problemas além da atribuição do cardiologista, mas facilmente abordados
pelas psicólogas que trabalham nos serviços cardiológicos dos hospitais.
Pioneiras na aplicação da Psicologia nos serviços cardiológicos do Incor,
do Hospital do Coração, da Beneficência Portuguesa, em São Paulo,
Belkiss W. Romano, Silvia Cury Ismael e Maria de Fátima Oliveira foram
fundadoras do Departamento de Psicologia da Socesp.
Mulher do cardiologista Sergio de Almeida Oliveira, Maria de Fátima
Praça de Oliveira programava sua formação psicanalítica quando se viu
tranqüilizando pacientes do marido que ligavam preocupados com a
burocracia oficial ou que não conseguiam trabalhar o fato de que seu
coração – o órgão extremamente simbólico – seria manuseado pelos
médicos.
“Um paciente estressado disse que não dormia desde que soubera da
operação”, lembra, “conversei com ele, foi como uma consulta improvisada
e ele, mais tranqüilo, disse que queria conversar de novo no dia
seguinte”. Casos como esse levaram a psicóloga a abandonar seus planos,
falar com o marido sobre unir-se à equipe. Ela acabou visitando
hospitais em Washington como os americanos agiam, adaptou o conhecimento
para a realidade brasileira e nunca mais parou de trabalhar cardíacos.
O caminho de Belkiss foi diferente, começou com um protocolo de pesquisa
na USP, para saber se o tipo de filtro da extra-corpórea influenciava
quadros neuropsicológicos da fala e da memória mas, como “soldado de
folga no quartel”, ajudava uma família a lidar com a morte, ou
desmistificava a cirurgia um paciente estressado.
Quando a equipe multidisciplinar de Zerbini foi montar o Incor, Belkiss
pensou muito, abandonou o projeto prontinho de ir para o Canadá e
mergulhou no campo que nunca mais abandonaria.
“Os problemas são variados, o paciente ‘sarado’ que precisa lidar com a
cicatriz, o deprimido, cuja situação emocional é fator de risco”, o
executivo que precisa reduzir as 12 horas de trabalho, o que não sabe
trabalhar a morte da mulher ou do filho.
Para Belkiss, o desafio foi fantástico, principalmente porque “o Incor
começou direito, eu participava das visitas, ia em busca do paciente, da
família que se desagrega com a cardiopatia, identificava o cuidador,
aquele que assumirá o papel do infartado afastado temporariamente da
família.
Silvia Cury Ismael, do Hospital do Coração, já trabalhava na área
hospitalar, quando começou a ser chamada para atender enfartados cujo
estresse repercutia na irrigação coronariana. “Cheguei a enfrentar casos
que o estresse foi o único fator de risco e bastou para desencadear o
enfarto”, garante ela.
“E após o enfarto, o paciente tem seqüelas emocionais que precisam ser
resolvidas, ele se vê como finito, passa a encarar a morte, deixa de se
sentir onipotente”, e o apoio psicológico pode ser essencial.
Caso significativo, lembra, um pai cuja filha se enforcou e ele não só
não conseguia lidar com o fato, como culpava o genro de estimular o
suicídio. “Foi preciso primeiro tratar o emocional, gravíssimo,
simultaneamente com o problema cardiológico”, lembra ela.
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Fonte: Assessoria de Imprensa da SBC
Jornalista Responsável: Luiz Roberto de Souza Queiroz
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